atitude
a mais difícil
tratar diferentes
sem indiferença
(Flávio Machado)
a mais difícil
tratar diferentes
sem indiferença
(Flávio Machado)
Descia a passos largos a calçada da Avenida Angélica. Mal a certeza de sua bengala tocava o chão, já estava pisando com segurança e firmeza o sólido e invisível calçamento. Rapaz jovem, cabelos negros contrastando com sua pele branca, bonitas feições. Abraçava carinhosamente sua namorada.
Não importa o que aconteceu antes, o que poderá acontecer depois. Dos olhos saudáveis do jovem que esperava, impacientemente, sua condução escorreu uma lágrima. Uma lágrima pelos olhos que sentem um mundo envultecido, mas que também parecem sentir que nem tudo é o taciturno preconceito. Um instante se passou, o rapaz secou os resquícios de sua sensibilidade momentânea, respirou profundamente, talvez para poder encarar olhos nos olhos a cegueira daqueles que dizem que enxergam.
Num mundo onde as relações interpessoais estão tão afetadas pelo(s) preconceito(s), onde um cabelo liso ou enrolado demais são motivos (a que ponto chegamos!) para as pessoas não se aproximarem, onde o ego do ser humano quer ser alimentado a todo instante por elogios-oblíquos , aquele casal fez pensar e a imaginação devanear: talvez algum dia inventem lentes contra qualquer tipo de preconceito... talvez, neste dia, alguém grite do interior de uma carro “Estou cego” de uma cegueira alva e luminosa.
“Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.” José Saramago