"Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."
(Trecho do "Passagem das Horas", Álvaro de Campos)
Eu sou
Os orvalhos úmidos, amarelos e lilases do meu outubro.
O bafo opaco e pachorrento do verão.
O azul marítimo, fresco e incerto de abril.
O cinza áspero e ranzinza do inverno só.
Ainda, sou
A força da maré nos olhos de ressaca.
A intensidade da seca na terra infértil e rachada.
A voluptuosidade do vento em minhas saias.
O deleite do fogo em minhas fantasias.
Enfim, sou
Ciclo excêntrico,
Breve e permanente,
Mandala de cores, sensações, senões.