segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai as velhas formas do viver
Gilberto Gil

Usou a sua tinta mais fresca.

Pincelou de negro infinito e fresco o céu da madrugada.
Beliscou o céu de prateado com as inquietas estrelas cintilantes.
Espumou com brancos flutuantes o bailar das ondas.
Perdeu os inúmeros e miúdos grãos de areia no roçar da mata.

Deslizou as pinceladas mais vivas que podia.
Imaginou, esboçou, riscou, criou
Movimentos e pensamentos inquietos, consciência líquida.
Fixou as impressões do ar e do mar.

Retratou nas paredes do seu íntimo
Inconstantes e aconchegantes sensações.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,
Assim faltam os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.
Mas, como a essência do pensamento não é ser dito mas ser pensado,
Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada."
(Caeiro)

- Professora, o que significa essa palavra?
- Qual?
- Essa, que está na segunda linha do poema... Meigo. (Meigo... ecoou na realidade). O que significa?

Emudeci em eternos instantes. Por quê? Minha explicação era sensação. A memória não recorreu à palavra alguma.

- Você nunca ouviu ninguém ser chamado assim? Nem mesmo foi chamado assim algum dia? Nunca ouviu essa palavra mesmo?
- Não...

Desconcertada. Nenhum verbo daria conta.
Não consultei o dicionário, não foi educadora, não fui didática. Dane-se.

- Quem é seu melhor amigo? Vá até lá se quiser, dê um abraço nele. Um abraço que tente expressar tudo o que você sente por ele. Talvez seja um começo para tentar entender o que a palavra "meigo" pode significar. Quer tentar?

Uma tentativa, dois sorrisos longos, três linhas confusas.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

"Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui são sonhos diferentes."
(Trecho do "Se recordo", Ricardo Reis)


Memória é esquecimento.

Ser um desmemoriado nunca foi tão preocupante.

Não esquece, por isso não se lembra.

Contraditório. E agora?!

Esquece de vez...

.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Primeira pessoa

"Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."
(Trecho do "Passagem das Horas", Álvaro de Campos)

Eu sou
Os orvalhos úmidos, amarelos e lilases do meu outubro.
O bafo opaco e pachorrento do verão.
O azul marítimo, fresco e incerto de abril.
O cinza áspero e ranzinza do inverno só.

Ainda, sou
A força da maré nos olhos de ressaca.
A intensidade da seca na terra infértil e rachada.
A voluptuosidade do vento em minhas saias.
O deleite do fogo em minhas fantasias.

Enfim, sou
Ciclo excêntrico,
Breve e permanente,
Mandala de cores, sensações, senões.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Livro dos conselhos, El-Rei Dom Duarte

atitude

a mais difícil
tratar diferentes
sem indiferença

(Flávio Machado)

Descia a passos largos a calçada da Avenida Angélica. Mal a certeza de sua bengala tocava o chão, já estava pisando com segurança e firmeza o sólido e invisível calçamento. Rapaz jovem, cabelos negros contrastando com sua pele branca, bonitas feições. Abraçava carinhosamente sua namorada.

Não importa o que aconteceu antes, o que poderá acontecer depois. Dos olhos saudáveis do jovem que esperava, impacientemente, sua condução escorreu uma lágrima. Uma lágrima pelos olhos que sentem um mundo envultecido, mas que também parecem sentir que nem tudo é o taciturno preconceito. Um instante se passou, o rapaz secou os resquícios de sua sensibilidade momentânea, respirou profundamente, talvez para poder encarar olhos nos olhos a cegueira daqueles que dizem que enxergam.

Num mundo onde as relações interpessoais estão tão afetadas pelo(s) preconceito(s), onde um cabelo liso ou enrolado demais são motivos (a que ponto chegamos!) para as pessoas não se aproximarem, onde o ego do ser humano quer ser alimentado a todo instante por elogios-oblíquos , aquele casal fez pensar e a imaginação devanear: talvez algum dia inventem lentes contra qualquer tipo de preconceito... talvez, neste dia, alguém grite do interior de uma carro “Estou cego” de uma cegueira alva e luminosa.

“Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.” José Saramago

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Dois professores readaptados em uma sala de aula (e outra tentando adaptar-se)

"Crianças e loucos dizem a verdade."
Provérbio da Alsácia


Três professores estavam em uma sala aguardando, não a próxima aula, mas sim a próxima licença médica psiquiátrica. Cada um com seus motivos. Diziam, ao mesmo tempo que esmurravam(!) a mesa, que os alunos pareciam doidos.

Dois deles conversavam fervorosamente sobre os sedativos e anti-depressivos que já tomaram e dos quais ainda fazem uso. “Fluorexitina, Prozac, Amithyl...” contavam empolgadamente que esses eram velhos amigos dos seus conhecidos- falecidos-suicidas.

Tentando isolar-se dessa conversa de doidos (ah não, desculpe-me, doidos são os alunos, não é isso?!) uma professora procurava preparar algumas aulas. Desatenta, quase escreveu no exercício “ Responda e justifique sua resposta: a Loucura está no outro, em você ou em nós todos?"

Porre de cerveja sem álcool

imprevisto

na certa
é amor
ou
quase isso

(disse a carta
do tarô)

búzios
oráculos
horóscopo
até no céu
estava escrito
:
é amor
ou quase que

acreditou...

e se ferrou
bonito

(Valéria Tarelho)



Estacionou o carro como uma criança descuidada que joga a bicicleta no chão. Abriu a porta com tamanha ligeireza enquanto refletia sobre o amor. Concluiu: já que o amor é cego, deveria também ser surdo, mudo, esquizofrênico e paralítico!

Acreditou em tudo! Da carta do tarô ao poema de amor. Os poetas e os tarólogos deviam trabalhar no circo.

Decidiu beber, esquecer, deixar de trabalhar, virar freira. Entornou todas as latas de cerveja da geladeira (uma marca desconhecida), ligou para a amiga (a amiga disse que era importada). Chorou, ficou alta, dormiu o sono babão dos bêbados e acordou no dia seguinte de ressaca.

Ainda não conseguira entender “qual era o seu problema?”, quando as infelizes letras saltaram das latas de cerveja vazias: zero de álcool!

Seu problema é que não inventaram ainda um Engov para porre de cerveja sem álcool, àquelas pessoas que vivem embriagadas de sua própria imaginação.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O que planta sementes...

São tantos os menores
Abandonados pelas calçadas
De Paulisibéria
Que um dia os maiores
Acabam tropeçando neles
E param de fingir
Que ainda não notaram
(Ulisses Tavares)


Estava na sala de aula. Não olhava para fora. Olhava para si. Olhar carente, terno, louco.


É um rapaz bonito, pele morena, sorriso tímido nos lábios. Tudo disfarce. Disfarça a vida ríspida e nada acolhedora em que vive. Disfarça a mágoa que tem dos pais. Disfarça a falta de rumo na vida. Disfarça a falta de dignidade que leva sem ter feito opção.


O mais velho dos seis irmãos, estava presente em cada separação da guarda dos pais. “Guarda dos pais”? “Arma dos pais!”. Sofre. Sofre por ele, pelos outros seis. Gostaria de ajudar a todos, mas mal consegue sustentar a si próprio.


Pobre louco. Luta por resquícios de sanidade.

"E jacaré entendeu? Nem eu!"

(Macunaíma, Mário de Andrade)


Ci, às avessas, não vive no céu (mas quase viu estrelas de tanta raiva), queria saber se seu herói era mesmo sem nenhum caráter e resolveu procurá-lo entre a nada virgem, cinza e cimentada quimera urbana.

Pois o herói, que vivia enfastiado, queixando-se de fadiga e declamando a sua máxima “Ai! que preguiça...”, não estava em sua rede dormindo. Riscava a noite fumaças e sons, comemorando a brincadeira que corria solta.

A princípio, enfurecida, Ci pensou em fazer um pega, mas sabia que isso só pertencia aos escritos originais. Inconsolável , voltou a sua casa que ficava próxima ao Mato-Virgem.

No dia seguinte, o herói sem caráter, padecendo de insanidade, dizia não entender como Ci havia sido mordida por cobra. Vociferava fundamentos imaginários com boa-fé.

Ci, que não estava mais para brincadeiras, esperou apenas uma virada de estrelas.

Não se tornou sol, nem lua. Não mais personagem e companheira do herói sem caráter, voltou a ser apenas a leitora de um texto modernista.