Três professores estavam em uma sala aguardando, não a próxima aula, mas sim a próxima licença médica psiquiátrica. Cada um com seus motivos. Diziam, ao mesmo tempo que esmurravam(!) a mesa, que os alunos pareciam doidos.
Dois deles conversavam fervorosamente sobre os sedativos e anti-depressivos que já tomaram e dos quais ainda fazem uso. “Fluorexitina, Prozac, Amithyl...” contavam empolgadamente que esses eram velhos amigos dos seus conhecidos- falecidos-suicidas.
Tentando isolar-se dessa conversa de doidos (ah não, desculpe-me, doidos são os alunos, não é isso?!) uma professora procurava preparar algumas aulas. Desatenta, quase escreveu no exercício “ Responda e justifique sua resposta: a Loucura está no outro, em você ou em nós todos?"
“... eu não faço poesia porque sou poeta, mas para exercitar minha alma.” Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Lispector. "Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso ... Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?" Leminski
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Dois professores readaptados em uma sala de aula (e outra tentando adaptar-se)
Porre de cerveja sem álcool
na certa
é amor
ou
quase isso
(disse a carta
do tarô)
búzios
oráculos
horóscopo
até no céu
estava escrito
:
é amor
ou quase que
acreditou...
e se ferrou
bonito
(Valéria Tarelho)
Acreditou em tudo! Da carta do tarô ao poema de amor. Os poetas e os tarólogos deviam trabalhar no circo.
Decidiu beber, esquecer, deixar de trabalhar, virar freira. Entornou todas as latas de cerveja da geladeira (uma marca desconhecida), ligou para a amiga (a amiga disse que era importada). Chorou, ficou alta, dormiu o sono babão dos bêbados e acordou no dia seguinte de ressaca.
Ainda não conseguira entender “qual era o seu problema?”, quando as infelizes letras saltaram das latas de cerveja vazias: zero de álcool!
Seu problema é que não inventaram ainda um Engov para porre de cerveja sem álcool, àquelas pessoas que vivem embriagadas de sua própria imaginação.
terça-feira, 9 de junho de 2009
O que planta sementes...
Estava na sala de aula. Não olhava para fora. Olhava para si. Olhar carente, terno, louco.
É um rapaz bonito, pele morena, sorriso tímido nos lábios. Tudo disfarce. Disfarça a vida ríspida e nada acolhedora em que vive. Disfarça a mágoa que tem dos pais. Disfarça a falta de rumo na vida. Disfarça a falta de dignidade que leva sem ter feito opção.
O mais velho dos seis irmãos, estava presente em cada separação da guarda dos pais. “Guarda dos pais”? “Arma dos pais!”. Sofre. Sofre por ele, pelos outros seis. Gostaria de ajudar a todos, mas mal consegue sustentar a si próprio.
Pobre louco. Luta por resquícios de sanidade.
"E jacaré entendeu? Nem eu!"
Ci, às avessas, não vive no céu (mas quase viu estrelas de tanta raiva), queria saber se seu herói era mesmo sem nenhum caráter e resolveu procurá-lo entre a nada virgem, cinza e cimentada quimera urbana.
Pois o herói, que vivia enfastiado, queixando-se de fadiga e declamando a sua máxima “Ai! que preguiça...”, não estava em sua rede dormindo. Riscava a noite fumaças e sons, comemorando a brincadeira que corria solta.
A princípio, enfurecida, Ci pensou em fazer um pega, mas sabia que isso só pertencia aos escritos originais. Inconsolável , voltou a sua casa que ficava próxima ao Mato-Virgem.
No dia seguinte, o herói sem caráter, padecendo de insanidade, dizia não entender como Ci havia sido mordida por cobra. Vociferava fundamentos imaginários com boa-fé.
Ci, que não estava mais para brincadeiras, esperou apenas uma virada de estrelas.
Não se tornou sol, nem lua. Não mais personagem e companheira do herói sem caráter, voltou a ser apenas a leitora de um texto modernista.