quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Distância Imprecisa...

II. Horizonte

Fernando Pessoa

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O homem e o mar

Baudelaire


Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Ter íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Das-lhe beijos até, e , às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E há séculos mil, séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais n'uma luta selvagem,
Eternos lutadores, ó irmãos implacáveis!

domingo, 25 de julho de 2010

Deixe lá

"Deixei a mão da poesia rabiscar um poema..."
Teresa Cristina


O mar e a lira
O corpo e a rima
O rio e os segredos
A onda e os medos
De toda a constelação.
Nem apetece compreensão.
Foi sempre mar, manhã, mensagem, mistério, momento,
Noite, leve, pele, pensamento, vento, movimento.
Tão negro, tão branco, tão belo, madrugada,
Ida e vinda, onda levada.

Só não foi pôr-do-sol

Faz-se, agora,
Sem brilho, sem brisa,
Despedida.

Até
Outro entardecer de primavera!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Necessidade de mar

sede do sal de tuas ondas
de beber tua brisa
rir com o teu azul.
virar outra, outras, ostras
e pérolas.
Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem.
Amado Jorge

terça-feira, 22 de junho de 2010

Indecisão

Na dúvida ingrata,
Choro secas pétalas de margarida
Dos bem-quereres e dos mal-quereres.

E sem resposta fico.
Tempestade íntima de mar.
Das possiblidades ou das impossibilidades.

Pesadas infinitamente na balança das contradições.

Sempre férteis, dúvidas, pétalas.

domingo, 6 de junho de 2010

O quereres

Para as contradições dos quereres...

Diz-me que sou toda mistérios?
Dentro dos limites, o rádio do meu carro me entende... (rs).



Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão



(...)

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

(...)




O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

Caetano

domingo, 23 de maio de 2010

Saudade - Docesaudademora.



Por vezes pétala, primavera
Outras espinho, estiagem.

É mítica.
Precisa mistério.
Segredo, dentre muitos, de flor.
Senão, é decerto esquecimento.


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Bolsa o quê?!



"A fatalidade torna-nos invisíveis"

Gabriel García Márquez,
em Crônica de uma Morte Anunciada




"Todos os moradores de rua devem receber o Bolsa Família”


Afirmação do ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, no programa de rádio "Bom Dia Ministro", em 10/03/2010.





Então, faz-se um burocadastrocrático, (com qual endereço? Vão do Viaduto do Chá?! Calçada da Praça da República?!), entregam um cartão (para usar onde?! Desde quando esses homens, mulheres, famílias que sobrevivem nas ruas adentram em um restaurante ou supermercado sem antes os vigilantes os barrarem?!). É esse cadastro que nós temos que entender como “Desenvolvimento Social e Combate à Fome” ???!!!

Por que não inventam um cartão que valha uma moradia? Sim, “Vale-moradia”. Absurdo?! Não, muitíssimo menos absurdo, do ponto de vista da dignidade humana.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Não

Não é não.

Aquele que transborda das veias da expectativa, cheio, fogoso, convencido. Não adianta suavizar.

Não conseguiu,
Não conquistou,
Não alcançou.

Fica palavra indigesta, indesejada, enxaquecosa, ulcerosa.
Às vezes necessário ouvi-la, quase soletrada.

E se o vazio aberto pelo não fere, não precisa perguntar.
Sempre soubemos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sobre as notícias do início deste janeiro...

Desliza grão!
E não há nem tempo de pedir em oração.

Cobrem almas
Apagam auras
Abafam falares
Enterram olhares

Depois de recolhida,
ainda há o que fazer desta vida?

Vazios sufocantes.