terça-feira, 7 de outubro de 2014

A máquina da alma pós-moderna

Já não respira mais sem a ajuda dos aparelhos.
Dúvida latente: não sabe se pode viver mais sem eles.
Desliga-se ou vive-se?

E impaciente para pensar numa resposta, que o desacate
Os mantém em mãos:
Para que não lhe falte o último, estreito e insosso, curtir.

Já não consegue mais pensar sem ajuda dos ditos cujos.
Então os usa para pensar. E pensa que pensa. Ilusão.
Liberdade e felicidade presas  à luz da última mensagem.
Tanto faz à luz do dia ou à luz rarefeita da noite.

No desejo frio de registrar a felicidade, permanentemente, efêmera,
Conectado à essência virtual da imagem momentânea,
Que escorre e escoa nos valos da leveza e da superficialidade.
Irrita-se pelo sinal oscilante que brinca na tela.

Nem se dá conta que todos os imprescindíveis sinais e sentidos

Flutuam ao seu redor e dentro de si.

Escrevo e ponto

Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê?
(Paulo Leminski)

Escrever é para qualquer um:

É para qualquer um, uma, dois, duas...
Àqueles que sentem deixar-se escorrer pelas letras
E permitem que a incompletude desenhe-se em  palavras:

Bailando sentidos e sentimentos (in)coerentes.