terça-feira, 7 de outubro de 2014

A máquina da alma pós-moderna

Já não respira mais sem a ajuda dos aparelhos.
Dúvida latente: não sabe se pode viver mais sem eles.
Desliga-se ou vive-se?

E impaciente para pensar numa resposta, que o desacate
Os mantém em mãos:
Para que não lhe falte o último, estreito e insosso, curtir.

Já não consegue mais pensar sem ajuda dos ditos cujos.
Então os usa para pensar. E pensa que pensa. Ilusão.
Liberdade e felicidade presas  à luz da última mensagem.
Tanto faz à luz do dia ou à luz rarefeita da noite.

No desejo frio de registrar a felicidade, permanentemente, efêmera,
Conectado à essência virtual da imagem momentânea,
Que escorre e escoa nos valos da leveza e da superficialidade.
Irrita-se pelo sinal oscilante que brinca na tela.

Nem se dá conta que todos os imprescindíveis sinais e sentidos

Flutuam ao seu redor e dentro de si.

Escrevo e ponto

Escrevo. E pronto.

Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê?
(Paulo Leminski)

Escrever é para qualquer um:

É para qualquer um, uma, dois, duas...
Àqueles que sentem deixar-se escorrer pelas letras
E permitem que a incompletude desenhe-se em  palavras:

Bailando sentidos e sentimentos (in)coerentes.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Rascunho nas areias da imaginação

Castelhanos/Ilhabela

"O mundo é grande, mas em nós ele é profundo como o mar."

Rilke

Quando estou diante do mar paraliso. Com dificuldade escrevo ou leio. A força do mar é soberana, faz ensimesmar. Faz tomar consciência do ser no Universo, e ao mesmo tempo faz tomar consciência da imensidão voraz do mar. Sentimos e nos interiorizamos no centro de um equilíbrio, somos um ser total dentro de nós, mas somos muito pequenos diante da força da natureza. E ela é linda, incrível, fascinante, a natureza. Perfeita, poderosa, entidade. Vida. Ela é viva, daí que sentimos nosso pulsar no pulsar dela. A nossa respiração na intensidade do vento, nossa pele no roçar de uma árvore, nossos pensamentos contornando estrelas, o pulsar do coração no movimento das ondas. Sentimos o folêgo da nossa vida com sabor de maresia. A natureza torna-se o símbolo da nossa própria consciência de existência.


terça-feira, 15 de março de 2011

Pouso de Cajaíba

Brisa acariciando a pele!

Julho/2010

Brisa do mar...

"Não sou eu quem me navega. Quem me navega é o mar..."
Paulinho da Viola


Eia brisa do mar
Com licença,
O que você vai levar?

Pedra da encosta para afundar
Areia da praia para longe do mar
Conchas para pé acalantar
Espuma de onda depois de quebrar

Eia brisa do mar
Eia impulso de ar
Eia brisa do mar

Mas, brisa divina do mar,
Vou lhe fazer um pedido
Será que você também pode carregar
Essas ondas que esses olhos tem tido?

Com todo respeito e singeleza
Que a brisa permaneça com sua beleza
São ondas que só brisa e mar sabem seu sentido
E que podem compreender o pedido.

Eia brisa do mar
Eia

Thaísa

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Distância Imprecisa...

II. Horizonte

Fernando Pessoa

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O homem e o mar

Baudelaire


Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Ter íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Das-lhe beijos até, e , às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E há séculos mil, séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais n'uma luta selvagem,
Eternos lutadores, ó irmãos implacáveis!